Nelson Barbosa, secretário de política econômica do governo Lula e futuro secretário executivo do Ministério da Fazenda do governo Dilma, será o número 2 da Fazenda. A entrevista foi em 2008 e dá uma aula de economia e sobre o Plano Real. A verdade é que o Plano Real levou o país a falência em 1999. Durante cinco anos manteve uma câmbio fixo por decreto de 1 real 1 dólar. Foi uma farra que acabou em 1999 e explodiu no colo do próprio FHC, que deixou a presidência da República rejeitado por 76% dos brasileiros. Não saiu pior graças ao FMI, que assumiu a política econômica do seu segundo mandato. O Brasil não nasceu em 2003 no governo Lula, como zomba o PIG, mas os economistas sim...Mercadante por criticar a loucura do câmbio fixo do Plano Real quase foi fuzilado no paredão. Ainda hoje é conhecido como o homem que criticou o Plano Real, muito embora todos economistas agora sejam contra o real a 1,70 e o câmbio é livre...Dizem que essa desvantagem cambial prejudica a exportação, a indústria do país, mas não percebiam isso de 1994 a 1999 quando o real era forte por decreto. Talvez não existissem mesmo...
Agência Brasil - 30/06/2008
Plano Real acabou em 1999 com mudanças na concepção original, diz secretário
Daniel Lima
Repórter da Agência Brasil
Repórter da Agência Brasil
Brasília - O Plano Real acabou em 1999, com a mudança no câmbio, que passou a ser flutuante, com a meta de inflação, a de resultado primário [superávit primário] que não faziam parte da concepção inicial, no entender do secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.
Em entrevista à Agência Brasil ele considerou as medidas adotadas em 1º de julho de 1994 importantes porque reduziram a inflação a níveis administráveis, mas afirmou que vê como um equívoco comparar a atual política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva com o Plano Real, que completa 14 anos amanhã.
O secretário concordou com o Banco Central no que diz respeito à trajetória da inflação. Segundo ele, os preços devem subir até outubro ou novembro e depois começam a ceder. Para o Barbosa, o desafio agora está na arte de balancear crescimento com controle da inflação.
Agência Brasil - Secretário o que mudou com o Plano Real?
Nelson Barbosa - Foi um plano muito importante porque acabou com a alta inflação que havia no Brasil, foi engenhoso e fez uma reforma monetária. Foi bem sucedido em reduzir a inflação de níveis elevadíssimos para níveis administráveis. Naquela época, [o plano] conseguiu reduzir o grau de indexação da economia e reduziu a inflação utilizando uma âncora cambial que naquela época era o instrumento disponível. Acho que nesse sentido foi um grande sucesso. Na minha visão, o Plano Real acaba em 1999. Desde então houve uma mudança no regime de política para o câmbio flutuante, para meta de inflação, para meta de resultado primário, que não faziam parte da concepção inicial. Acho que o Plano Real foi muito bem sucedido no sentido de reduzir [a inflação] e desindexar a economia, mas depois ele pecou por utilizar em excesso o instrumento da âncora cambial [câmbio fixo] para manter a inflação baixa aumentando a vulnerabilidade externa da economia.
Nelson Barbosa - Foi um plano muito importante porque acabou com a alta inflação que havia no Brasil, foi engenhoso e fez uma reforma monetária. Foi bem sucedido em reduzir a inflação de níveis elevadíssimos para níveis administráveis. Naquela época, [o plano] conseguiu reduzir o grau de indexação da economia e reduziu a inflação utilizando uma âncora cambial que naquela época era o instrumento disponível. Acho que nesse sentido foi um grande sucesso. Na minha visão, o Plano Real acaba em 1999. Desde então houve uma mudança no regime de política para o câmbio flutuante, para meta de inflação, para meta de resultado primário, que não faziam parte da concepção inicial. Acho que o Plano Real foi muito bem sucedido no sentido de reduzir [a inflação] e desindexar a economia, mas depois ele pecou por utilizar em excesso o instrumento da âncora cambial [câmbio fixo] para manter a inflação baixa aumentando a vulnerabilidade externa da economia.
ABR - Então não é uma continuação?
Barbosa - Muitas pessoas dizem que é uma continuação, mas eu não vejo como pode ser uma continuação. Primeiro, você tem uma política de câmbio flutuante e no Plano Real você tinha câmbio fixo. Também não é a mesma coisa da política de câmbio flutuante pós Real do segundo mandato do governo Fernando Henrique, porque hoje você tem um câmbio flutuante com altas reservas internacionais. Câmbio flutuante com baixa vulnerabilidade externa, enquanto antes era um câmbio flutuante com alta vulnerabilidade externa, com baixas reservas internacionais.
Barbosa - Muitas pessoas dizem que é uma continuação, mas eu não vejo como pode ser uma continuação. Primeiro, você tem uma política de câmbio flutuante e no Plano Real você tinha câmbio fixo. Também não é a mesma coisa da política de câmbio flutuante pós Real do segundo mandato do governo Fernando Henrique, porque hoje você tem um câmbio flutuante com altas reservas internacionais. Câmbio flutuante com baixa vulnerabilidade externa, enquanto antes era um câmbio flutuante com alta vulnerabilidade externa, com baixas reservas internacionais.
ABR - E no campo fiscal?
Barbosa - No campo fiscal, certamente não é igual ao Plano Real porque acho que ele chegou a ter, em alguns anos, déficit primário. Uma das grandes falhas que se aponta do Plano Real - não acho que é a principal - acho que foi a cambial, mas havia uma política fiscal relativamente folgada que era inconsistente com as metas do plano. Isso muda em 99, você começa a ter as metas de [superávit] primário [a economia que o governo faz para honrar compromissos financeiros]. Então, a política atual é diferente da política do real e também, na minha opinião, diferente das políticas de superávit primário praticadas até 2003, porque agora você combina superávit primário com responsabilidade social, com alto investimento em programas de transferência de renda e investimento público. Não é a mesma coisa. Está sendo provado que é possível fazer ajuste fiscal com crescimento. Não é só o número do [superávit] primário, mas como você faz o primário, qual a qualidade desse primário. Você fez um programa que privilegia inicialmente as políticas sociais, as transferências de renda que vêm para combater a pobreza e as desigualdades na distribuição de renda. Mais recentemente, de 2007 para cá, vem privilegiando o investimento público para dar sustentação ao crescimento.
Barbosa - No campo fiscal, certamente não é igual ao Plano Real porque acho que ele chegou a ter, em alguns anos, déficit primário. Uma das grandes falhas que se aponta do Plano Real - não acho que é a principal - acho que foi a cambial, mas havia uma política fiscal relativamente folgada que era inconsistente com as metas do plano. Isso muda em 99, você começa a ter as metas de [superávit] primário [a economia que o governo faz para honrar compromissos financeiros]. Então, a política atual é diferente da política do real e também, na minha opinião, diferente das políticas de superávit primário praticadas até 2003, porque agora você combina superávit primário com responsabilidade social, com alto investimento em programas de transferência de renda e investimento público. Não é a mesma coisa. Está sendo provado que é possível fazer ajuste fiscal com crescimento. Não é só o número do [superávit] primário, mas como você faz o primário, qual a qualidade desse primário. Você fez um programa que privilegia inicialmente as políticas sociais, as transferências de renda que vêm para combater a pobreza e as desigualdades na distribuição de renda. Mais recentemente, de 2007 para cá, vem privilegiando o investimento público para dar sustentação ao crescimento.
ABR - E no caso monetário?
Barbosa - No Plano Real, você não tinha a meta de inflação, mas tinha uma meta cambial que funcionava para reduzir a inflação. A partir de 1999, a âncora vai embora e se institui o sistema de meta de inflação, que passa ser uma âncora expectacional, que prova ser mais bem-sucedida por ser bem mais versátil. Acho que foi um acerto e essa política continua desde então.
Barbosa - No Plano Real, você não tinha a meta de inflação, mas tinha uma meta cambial que funcionava para reduzir a inflação. A partir de 1999, a âncora vai embora e se institui o sistema de meta de inflação, que passa ser uma âncora expectacional, que prova ser mais bem-sucedida por ser bem mais versátil. Acho que foi um acerto e essa política continua desde então.
ABR - Mas e no período 1999 a 2002, correspondente ao segundo mandato de FHC, quando se optou pelas metas de inflação?
Barbosa - Na minha opinião, a nossa [meta de inflação] não é igual a essa pois nós tentamos compatibilizar meta de inflação com aceleração do crescimento. Não só puramente metas de inflação. Você tem que manter a inflação sob controle sim, você tem que manter ela estável, mas também manter o crescimento em um nível adequado para gerar emprego, para melhorar a situação social da economia. É isso que a gente vem tentando. Compatibilizar esses dois objetivos. Por isso que a meta de inflação tem que levar em conta a expectativa de potencial de crescimento da economia para aproveitar esse potencial. Nesse sentido, acho que ela então, que apesar de ser o mesmo instrumental, o mesmo arcabouço institucional, ela tenta balancear as coisas. É o mesmo carro que a gente está dirigindo só que não está dirigindo da mesma forma e essa é a diferença.
Barbosa - Na minha opinião, a nossa [meta de inflação] não é igual a essa pois nós tentamos compatibilizar meta de inflação com aceleração do crescimento. Não só puramente metas de inflação. Você tem que manter a inflação sob controle sim, você tem que manter ela estável, mas também manter o crescimento em um nível adequado para gerar emprego, para melhorar a situação social da economia. É isso que a gente vem tentando. Compatibilizar esses dois objetivos. Por isso que a meta de inflação tem que levar em conta a expectativa de potencial de crescimento da economia para aproveitar esse potencial. Nesse sentido, acho que ela então, que apesar de ser o mesmo instrumental, o mesmo arcabouço institucional, ela tenta balancear as coisas. É o mesmo carro que a gente está dirigindo só que não está dirigindo da mesma forma e essa é a diferença.
ABR – E agora, não volta a preocupação com a inflação. Existe esse temor?
Barbosa - Nós temos que tomar cuidado com o jogo de palavras. Porque neste momento de volatilidade, de preocupação, de muita incerteza internacional, o governo tem que transmitir - e ser o agente que transmite - tranqüilidade e serenidade. Isso não deve ser confundido com passividade. O governo está atuando. Atuou fortemente para trazer a inflação para baixo, para reduzir a inflação de volta ao centro da meta dentro do prazo considerado adequando para manter o crescimento da economia. O Banco Central atuou, o Ministério da Fazenda atuou dentro da política fiscal, então o governo está atento e está monitorando isso diariamente, tomando medidas. Mas também o governo não quer alimentar boatos e medos infundados, porque a gente tem um sistema institucional forte, capaz de trazer a inflação para baixo a médio prazo, e isso já está em movimento. Nesse sentido, nós já estamos monitorando a situação sem grandes sobressaltos, mas sem nenhuma passividade. Pelo contrário.
Barbosa - Nós temos que tomar cuidado com o jogo de palavras. Porque neste momento de volatilidade, de preocupação, de muita incerteza internacional, o governo tem que transmitir - e ser o agente que transmite - tranqüilidade e serenidade. Isso não deve ser confundido com passividade. O governo está atuando. Atuou fortemente para trazer a inflação para baixo, para reduzir a inflação de volta ao centro da meta dentro do prazo considerado adequando para manter o crescimento da economia. O Banco Central atuou, o Ministério da Fazenda atuou dentro da política fiscal, então o governo está atento e está monitorando isso diariamente, tomando medidas. Mas também o governo não quer alimentar boatos e medos infundados, porque a gente tem um sistema institucional forte, capaz de trazer a inflação para baixo a médio prazo, e isso já está em movimento. Nesse sentido, nós já estamos monitorando a situação sem grandes sobressaltos, mas sem nenhuma passividade. Pelo contrário.
ABR - Nesse momento existem novas medidas sendo elaboradas?
Barbosa - Algumas medidas já foram tomadas. A gente não anuncia medidas hipotéticas ou futuras. O que a gente teve foi aumento de taxas de juros, aumento do superávit primário, gasto público – o chamado impulso fiscal – já é negativo, o que significa que a política fiscal do governo federal está contribuindo para o controle da demanda agregada e essas coisas levam tempo para aparecer. Esta semana o governo vai lançar o Plano Safra. Que não tem o impacto imediato sobre os preços neste ano, mas ao viabilizar o aumento da safra no final deste ano e do ano que vem vai contribuir para o controle do preço dos alimentos e também para reduzir a inflação a médio prazo.
Barbosa - Algumas medidas já foram tomadas. A gente não anuncia medidas hipotéticas ou futuras. O que a gente teve foi aumento de taxas de juros, aumento do superávit primário, gasto público – o chamado impulso fiscal – já é negativo, o que significa que a política fiscal do governo federal está contribuindo para o controle da demanda agregada e essas coisas levam tempo para aparecer. Esta semana o governo vai lançar o Plano Safra. Que não tem o impacto imediato sobre os preços neste ano, mas ao viabilizar o aumento da safra no final deste ano e do ano que vem vai contribuir para o controle do preço dos alimentos e também para reduzir a inflação a médio prazo.
ABR - E quanto à curva de inflação? Até onde ela pode ir?
Barbosa - Como está apresentada pelo boletim do Banco Central, por questão de inércia, de efeito estatístico, esta inflação acumulada em 12 meses, como é uma média móvel, deve continuar subindo até outubro, talvez até novembro, e aí ela começa a cair. Até onde ela vai, é questão de modelo. Segundo expectativa do BC, fecha um pouco acima de 6% e depois cai ligeiramente e continua caindo até chegar perto de 4,5% no final de 2009 e [fica em] 4,5% em 2010.
Barbosa - Como está apresentada pelo boletim do Banco Central, por questão de inércia, de efeito estatístico, esta inflação acumulada em 12 meses, como é uma média móvel, deve continuar subindo até outubro, talvez até novembro, e aí ela começa a cair. Até onde ela vai, é questão de modelo. Segundo expectativa do BC, fecha um pouco acima de 6% e depois cai ligeiramente e continua caindo até chegar perto de 4,5% no final de 2009 e [fica em] 4,5% em 2010.
ABR - Esse é o desafio?
Barbosa - O desafio da política econômica agora é sempre administrar o que a gente chama de trade-off [as trocas]. Ou seja, você tem agora uma questão que é baixar rapidamente a inflação sem desacelerar muito a economia. Se você quiser só baixar a inflação rapidamente, você consegue desacelerando bastante a economia. Se você quiser não desacelerar a economia você consegue mantendo a inflação alta. A arte está em balancear, não escolher um dos extremos. A mesma coisa é no câmbio. Como é que você mantém o câmbio flutuante, mas sem aumentar muito a vulnerabilidade externa. É muito fácil manter o câmbio completamente flutuante e deixar a vulnerabilidade externa residual ou manter uma baixa vulnerabilidade externa controlando o câmbio como alguns países fazem. A mesma coisa na política fiscal. Você vai cortar gasto, pode cortar sem nenhuma responsabilidade social. Mas também se a gente vai manter a responsabilidade social gastando demais sem nenhum preocupação com equilíbrio fiscal é outro extremo. A gente está nessa fase de administrar a política econômica dentro desses extremos. Eu vejo no debate que as posições são polarizadas. Algumas pessoas querem que a gente vá para alguns extremos, desconsiderando completamente os outros efeitos. Isso obviamente não é a política que a gente vem praticando nem acho que essa é a melhor política, pois isso introduz mais volatilidade na economia.
Barbosa - O desafio da política econômica agora é sempre administrar o que a gente chama de trade-off [as trocas]. Ou seja, você tem agora uma questão que é baixar rapidamente a inflação sem desacelerar muito a economia. Se você quiser só baixar a inflação rapidamente, você consegue desacelerando bastante a economia. Se você quiser não desacelerar a economia você consegue mantendo a inflação alta. A arte está em balancear, não escolher um dos extremos. A mesma coisa é no câmbio. Como é que você mantém o câmbio flutuante, mas sem aumentar muito a vulnerabilidade externa. É muito fácil manter o câmbio completamente flutuante e deixar a vulnerabilidade externa residual ou manter uma baixa vulnerabilidade externa controlando o câmbio como alguns países fazem. A mesma coisa na política fiscal. Você vai cortar gasto, pode cortar sem nenhuma responsabilidade social. Mas também se a gente vai manter a responsabilidade social gastando demais sem nenhum preocupação com equilíbrio fiscal é outro extremo. A gente está nessa fase de administrar a política econômica dentro desses extremos. Eu vejo no debate que as posições são polarizadas. Algumas pessoas querem que a gente vá para alguns extremos, desconsiderando completamente os outros efeitos. Isso obviamente não é a política que a gente vem praticando nem acho que essa é a melhor política, pois isso introduz mais volatilidade na economia.
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